segunda-feira, 23 de maio de 2011

No sábado, cartografias flutuantes bem espaçadas no fundo branco. Anterior, eu andava pra lá e pra cá pensando em como me virar sem um celular em 2011. Ele me empunhou um pequeno livro de Manoel de Barros, um desses que podem marcar um fim, já que tudo deverá terminar em um livro. Abri numa página qualquer, visualizei um trecho dizendo que ele era rascunho de sonho e fechei para apalpar o outro objeto: cardápio. Fizemos uma curta caminhada pelo estreito bairro da Gávea e nos organizamos em um mesa que cortava o bar em dois lados de maneira que o som era retido pelas pessoas laterais à mim, e eu não conseguia participar das conversas.
Pescava palavras, intuía continuidades e assim fui por quase 2 horas, hesitando em fazer perguntas aos tais curadores que poderiam muito bem ser nossos amigos de copo ou colegas de faculdade. Passei então a observar a forma de organização dos móveis, dos quadros na parede, dos copos sobre a mesa, e vez ou outra fingia uma atenção ao campeonato francês de futebol. O importante a ser dito é que estou me relacionando melhor com as construções estáticas do que com pessoas.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Seria loucura tentar reproduzir esta foto como uma possível instalação onde eu me sentiria retornando. Ontem ele me disse que da casa dele até a minha, são 2 horas.
E tudo que pensei em responder foi sobre a pena, a não possibilidade de fazer o percurso contrário e marcar meus passos. Se eles teriam o mesmo ritmo, ou se chegaria mais rápido porque sim, eu tinha mais senso de direção que ele. Talvez eu tenha mais intimidade com mapas. E posso escolher me gabar sobre isso, já que os dias foram declinando após a celebração tipo cocaína. Eles passam pelos cantos e no espaço que me sobrou evitando beiradas, estou girando pra ver se acerto a loteria, o alvo, ou o jogo do bicho.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Tem os dias em que detesto o barulho do telefone, do aspirador de pó, e das vozes das pessoas. Me irrito de maneira inacreditável, e sinto falta da minha vida solitária e incrivelmente espaçosa, onde eu podia pensar sobre tudo. Tem os dias em que duvido muito das pessoas e crio discursos prováveis na minha cabeça. Depois os apago, já que dizer tudo o que eu acho não mudaria muita coisa. São esses os dias em que não me esforço a favor das convenções da boa política da vida, digo que estou me lixando, e não me preocupo com os afetos. Seleciono pessoas nos dedos; estas são as que não me cobram voz, porque podemos existir silenciosamente uma ao lado da outra.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

por segundos apos ter visto a foto que ela me enviou eu pensei que pudesse estar mais perto deles dois e que a vida ainda era aquela suspensão estranha que qualquer momento era indizivel, mas não, o calor essa cor toda daqui e as medidas de tempo no corpo unha cabelo pele me disseram que não. Nao estou.

domingo, 10 de abril de 2011

Eu entendo que permanecer numa repetida nostalgia pode ser um sentido contrario a qualquer continuidade que eu deveria dar a minha vida. Porém, como conclui que nada do aconteceu nesse corte no tempo que me foi dado para existir, deve ser superado, vou continuar dizendo que me falta ar quando escuto Paris na frase, como ja sentia gradualmente quando percebi que o proximo vinha chegando, esse exato presente em que escrevo.
Nao é o Rio de Janeiro que nao é, ele é. Assim como todas os meus pequenos pedaços que existem nele. Porém, a cidade de Paris se misturou a mim. O cheiro do meu quarto, o desenho das ruas, o vento e o pequeno volume das vozes, tudo, pertence ao meu corpo, porque foram coisas possiveis. Este corpo parece por vezes suspenso tentanto compreender um novo espaço. Num mesmo instante em que simplesmente só o re-conhece, porque foi ele e nele todo o tempo em que existiu. Estou, estamos, tentando organizar esta nova composiçao determinada, enquanto supomos um novo encontro.

sábado, 12 de junho de 2010

Fazia o tempo seu papel de passar e me tornar incapaz de pronunciá-lo. Parece que quando você começa a não achar tudo tao incrível, é porque de um certo ponto começou a enxergar a cidade como uma parte sua, não como um turista. É uma sensação estranha, mas olho menos mapas, estou alegre.
As pernas estão a mostra, achei que tivesse ouvido meu coração começando a bater fora do corpo mas ai as palavras que vem distantes se embaralham e quando a gente não esta materializado, ficar frio acontece mais rapido.
Estamos gargalhando juntas na cozinha que meu corpo em repouso consegue alcançar os quatro cantos; pra dentro do prédio, minha voz ecoa, aqui eu falo forte, não alto.
Os vícios internéticos, os livros se multiplicando na estante, os sapatos e os papéis. Domingo Aniv. Lucenne, dobrados sobre o escuro, je n'aime pas superbonder ultra, imprimir uma foto de alguém conhecido, seu telefone, désolée j'ai fini ton thé, enleios: 4 meses!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Nesse finalzinho de Março, sai de Paris pela primeira vez.
Depois de tantos anos, o revi. Ou, o vi. Os tempos reescrevem pessoas.
Tenho vontade de passar meu dedos sobre o seu rosto, pra retribuir a gentileza e quebrar o frio que vejo por ali. A guinness parece café. Dublin abriu um sol, foram momentos muito lentos e outro rapidos demais. O aviao da madrugada me levou pra Londres. Nao sei se sempre chuvosa, mas sim, como a conheci. Estive angustiada por aqueles dias, meus pés doeram mais do que esperei, mas que fotografias aquelas de Irving Penn , e a fabrica dos meus sonhos amontoados, Tate, a tesoura de Louise Bourgeois, a sala pesada de Beuys, um portugues Juliao reescrevendo sombras de Bataille e Joyce. Me deixem sozinha por um tempo aqui; Respirando o silencio como nunca fiz antes. Voltei muito rapido, perdi o horario, o pique, a explicaçao.
Me senti voltando mesmo pra casa, com o corpo desmontado no trem iluminado de mais um novo caminho de Paris. Meu quarto demorou pra esquentar. Pareceram decadas. Tudo parece muito. Eu escrevi muitos muitos. Uma musica se escolheu sozinha, de volta a rotina, o primeiro de abril poderia ter sido pegadinha. Parece que era pra dar errado. So fechei os olhos com pesar. O amor de mae dela, liquido liquido liquido, perdeu o alvo. Sinto falta dos meus portos seguros, mas se eu nao for tentar ser maior, de que vale ser uma? Minha pronuncia arranhou as cordas, mas bebemos um copo de vinho na aula. Consegui terminar o dia bem, parece.


Estou ha 68 dias em Paris.